Nem tudo o que luz é ouro

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Testemunhos

Iniciativas e experiências vividas ou testemunhadas por pessoas ou grupos, nacionais ou estrangeiros em zonas mineiras.

 

  • post de 16 de Agosto de 2013

Oito dias para apoiar impugnação de outro assalto à Rede Natura

A Quercus está a angariar fundos para impugnar judicialmente a intervenção imobiliária em Rede Natura, na Costa Vicentina. Muitos contributos de cinco euros podem fazer a diferença!

A página de Internet tem um procedimento de contribuição… para quem se entender nele. Pedi à Quercus um NIB para transferência bancária, que partilho:

NIB: 003502390001844793078

Titular: Quercus

Destino: campanha para impugnacao de projecto turistico Costa Vicentina

O recibo da contribuição pode entrar no IRS/IRC e terá de ser pedido , nesta modalidade de transferência bancária, para quercus@quercus.pt.

acp

 

  • post de 23 de Julho de 2013

Aldeias submersas: a perda irreparável

Uma mulher está sentada à beira da água, olhando para as rugas que a brisa desenha na superfície. “Ali, no fundo, está a minha aldeia. Ali, está a minha casa, estão as casas dos meus vizinhos. Está a nascente que regava as hortas. E uma fonte de água boa onde íamos beber. Tínhamos terras, eram poucas, mas eram terras escuras, que davam de tudo. Tínhamos os animais. E tínhamos flores. A minha avó tinha uma roseira encarnada, e a nossa vizinha um cacto gigante. À noite, quando o calor abrandava, estávamos todos sentados cá fora e íamos dizendo brincadeiras, ou dizendo mal umas das outras. E era bom, era dizer mal sem maldade.

Depois vieram os senhores da barragem. Que era preciso para dar electricidade para a vila, que era preciso para abastecer água para a cidade. Que íamos ter casas modernas, novas, com água e luz, num sítio melhor. Que as nossas casas velhas não tinham condições, que as nossas ruas eram tortas, que as terras eram demasiado pequenas, tudo era velho.

Primeiro não acreditámos, mas depois, eles prometeram que haveria empregos na barragem para as pessoas da aldeia, que iríamos viver melhor, que nos indemnizavam pelas casas e pelas terras e pagavam mais do que elas valiam, porque não valiam quase nada.”

Não compreendo porque se lhe enchem os olhos de lágrimas: e não estão melhor?

“Agora estou aqui a olhar para aquela água e a minha aldeia está lá no fundo, para sempre. Agora as casas que nos deram não parecem casas, são alojamentos de cimento, as ruas são estradas e tudo aquece tanto que não há onde se sentar nas noites de verão. Estamos sozinhos. Já não falamos com os vizinhos, porque mal abrimos a boca começamos a chorar e não sai nem uma palavra. Até bom dia boa noite custa dizer. Não queremos ver os vizinhos porque nos lembram as nossas hortas e as flores, e as casas velhas com os nossos segredos de infância. Agora, não sou eu que choro, parece-me que é a água da minha fonte que lá no fundo encontra o caminho dos meus olhos e não me deixa esquecer. E oiço-a, de noite, cantar de mansinho, lá no fundo. Para sempre.”

Há por esse país fora, desde Vilarinho das Furnas à Aldeia da Luz, por essa Europa fora, centenas de aldeias submersas que continuam a chamar pelos seus habitantes, mas estes não lhes podem dar socorro nem consolo. Tarde demais. O remorso por não ter sabido dizer “Não” quando lhes ofereciam maravilhas para abandonarem as suas aldeias, o remorso é tão profundo quanto as águas dessas barragens. Mas é demasiado tarde.

Aldeias submersas. Mas há as aldeias esventradas, laminadas, desaparecidas no turbilhão de pedras, poeiras e escombros, colinas arrasadas, nascentes removidas, ribeiros entulhados, árvores arrancadas. A supressão pelo ferro e pelo fogo. As aldeias destruídas nunca mais voltam. E nunca mais deixam de voltar à memória daqueles que, no momento decisivo, não souberam defendê-las, dizer: “Não”!

José Rodrigues dos Santos / CIDEHUS / Julho de 2013

  • post de 6 de Julho de 2013

E viva Espanha!

O surgimento do comentário de Aurora Puentes no nosso blogue foi, para mim, a melhor prenda de um mês de actividade que podia esperar. Ela está associada (aliás também Nela Abella, que nos contactou na mesma ocasião) a vários grupos de contestação mineira de que deixo os endereços de Facebook:

https://www.facebook.com/contraminaccion?ref=ts&fref=ts e https://www.facebook.com/santa.comba.9

O Santa Comba publicou já o mais recente texto do Rodrigues dos Santos, nesta página, sobre as “areias finas” da barragem de rejeitados.

Lendo um pouco mais do que se prepara em Corcoesto, na Galiza – mais de 700 ha de zona a minerar -, vemos como a exploração da Boa Fé não passa da ponta do icebergue, que, aliás, a prospecção prenuncia. A Serra de Monfurado é um alvo a destruir, para a extracção de um metal de rendimento elevado apenas para empresas mineiras predadoras. Também na Galiza o argumento dos postos de trabalho dobra os cerviz das Câmaras e dos necessitados. Curiosamente, para uma exploração que prolonga os trabalhos até à separação do ouro – com cianeto!, o que não se prevê para a Boa Fé – e uma extensão sete vezes maior, são anunciados apenas 270 postos de trabalho.

De uma importante troca de emails privados, retiro o seguinte: “Tenemos muchísima bibliografía, sobre todo con relación a problemas socioeconómicos (que lleva nuestro economista) y sobre arsénico+cianuro+salud humana y de los cultivos, el suelo y los animales domésticos.” Que muito gentil e solidariamente se preparam para nos ceder!

Vamos, pois, passar a ter informações regulares de Espanha. Abrindo, a breve trecho, novo separador no nosso blogue!

acp

  • post de 4 de Julho de 2013

A arte de dourar uma ilusão

cartaz_ouro_cores

Venho dar-vos conta da minha apreciação de como correu esta iniciativa do Bloco de Esquerda de Évora. Compareceram algumas dezenas de pessoas de diferentes origens, a maioria das quais estreantes na apreciação da exploração mineira.

O professor Rodrigues dos Santos, parceiro neste blogue, apresentou o projecto na globalidade, apoiado num Powerpoint que ajudou a visualizar a dimensão de vários aspectos da catástrofe que se prepara em Monfurado. O professor Chambel, especialista em Hidrologia, detalhou a questão dos impactes das duas cortas no comportamento das águas subterrâneas, logo na flora e no quotidiano das populações da Serra – uma afecção que ultrapassa o perímetro da mina num raio que pode alcançar 2 a 15 km das crateras, dependendo de comportamentos ainda muito pouco estudados das águas da Serra. O professor Carlos Cruz, activista ambientalista, analisou os impactes do projecto no objecto da classificação de Rede Natura. A mim, coube-me falar do trabalho desenvolvido por este blogue e sobre as perspectivas de luta a médio prazo, nomeadamente em termos de divulgação dos custos escondidos do projecto mineiro e da importância da coordenação nacional e internacional por actividades económicas sustentáveis.

Nas intervenções mais estritamente políticas do Bloco, a cabeça de lista para a Câmara de Évora, Helena Figueiredo, frisou a importância da luta contra a exploração mineira como eixo programático do BE para a região. A deputada Helena Pinto reiterou o apoio do Bloco de Esquerda, tanto a nível do Parlamento nacional como do Parlamento Europeu, dispondo-se a servir de veículo a iniciativas locais e regionais nesses palcos.

As intervenções do público possibilitaram o esclarecimento de aspectos menos focados nas intervenções iniciais, nomeadamente as questões de património cultural, com especial relevo para a gruta do Escoural, o conjunto dos Almendres e a igreja da Boa Fé.

Haverá seguramente mais sessões deste tipo no futuro, juntando cidadãos, políticos e académicos. Até que nenhum munícipe possa alegar desconhecimento de causa. Só debatendo e aprofundando os conhecimentos, a população poderá assumir posição sobre as vantagens de um empreendimento que os presentes não hesitaram em considerar um grave atentado anti-económico e anti-ecológico.

Ana Cardoso Pires

2 comentários

  1. Galvão diz:

    Bom dia a todos e a todas,

    Estou indignado com o projecto da mina por várias razões, e a primeira delas são as pessoas, os e as Alentejanas. Há muito tempo que não vivo no Alentejo e se calhar por isso guardo uma imagem pouco fiel da realidade, mas parece-me a mim que essa região tem uma beleza única e muito especial. Diz-se frequentemente que é uma região pobre mas oferece um espectáculo à vista que não tem preço e enche a alma como poucos sítios no mundo. As pessoas que vivem no Alentejo deveriam ser as mais conscientes da beleza da sua terra, sem por isso achar que ela é melhor: é única e por isso deve ser preservada, como qualquer outra região.

    Há cada vez mais turismo no Alentejo, algo que tem as suas vantagens e desvantagens. Quem tem comércios ganha, mas a estabilidade e autonomia económica da região perde. O ritmo económico depende das férias e das poupanças de gente muitas vezes bem intencionada, que quer descobrir uma região linda e cada vez mais publicitada. Infelizmente, este é um processo difícil de evitar, mas que pode ser reconduzido a melhor com o turismo sustentável, o turismo rural, etc. O ideal seria sem dúvida que o povo alentejano não dependesse de ninguém e pudesse fazer intercâmbios com quem quisesse sem estar numa situação de dependência.

    Mas o que é certo é que esse turismo depende da beleza de uma região que está ameaçada pela grande industria mineira, que não respeita as pessoas. Como qualquer multinacional, essa empresa extractora só obedece a uma regra: obter benefícios com os seus investimentos. O resto são leis que se devem contornar, valores que se devem ignorar, regras morais que se devem reduzir ao silencio. Que alguém acredite que existe alguma boa intenção detrás do projecto mineiro, seja de parte dos políticos ou da empresa, é no mínimo ingénuo. O mais provável é que seja uma opinião pouco fundamentada, mas não falta gente que defende a mina por interesses privados e egoístas.

    Todas as experiências de mega-minaria tiveram o mesmo resultado: exploração dos pobres, fomento das máfias políticas e económicas, destruição da natureza e dos laços sociais, manipulação das boas intenções de um povo desesperado, etc. Esperemos que este blog sirva para sensibilizar sobre os danos potenciais deste projecto, que estão sempre associados a intromissão do capital transnacional na vida das pessoas.

    ¡Nem tudo o que brilha é ouro!

  2. Nin todo o que brilla é ouro, nin todo é brillo no ouro: tamén ten as súas partes “escuras”.
    Moito ánimo, compañeiros de loita do Alentejo, desde este outro lado do Minho, onde padecemos tamén esta febre do ouro que tantos desastres nos pode traer.

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