Nem tudo o que luz é ouro

Início » Rejeitados

Category Archives: Rejeitados

2. Do Secretário de Estado do Ambiente, a Declaração de Impacte Ambiental (DIA)

Perante o Parecer da Comissão de Avaliação, esperava-se que o secretário de Estado do Ambiente dissesse o quê? Cumpra-se o estipulado pelos técnicos? Francamente, isso tornava o trabalho político tão insípido…

O esforço criativo do representante do Governo de Portugal, posto perante factos sobre os quais tem poderes decisivos, abre as condicionantes ao projecto com:

“1. Substituição gradual da solução de deposição subaquática de rejeitados por uma solução de deposição em pasta, em função dos resultados do estudo identificado no ponto 11 dos elementos a apresentar em fase de exploração.” (DIA, 1 de Julho de 2013)

Pergunta-se o inculto Zé Povinho: mas os técnicos não diziam que é uma construção diferente, tanto para a escombreira como para a barragem de rejeitados, dependendo se a deposição é subaquática ou em pasta? Para quê apresentar elementos novos em fase de exploração (logo, já com o empreendimento em execução, depois de realizados os trabalhos conducentes ao enchimento da escombreira e da bacia de rejeitados em modo subaquático!)?!

Ora, esclarece o Secretário de Estado do Ambiente:

“… o parecer  técnico da Comissão de Avaliação e a proposta de DIA preparada pela Autoridade de AIA reafirmaram a adoção da solução de deposição dos rejeitados em pasta (…). Contudo, de acordo com a informação apresentada pelo proponente em sede de audiência de interessados (…), a reformulação, nesta fase, do projecto de execução da barragem de rejeitados e das unidades subsequentes (escombreira e sistema de tratamento das águas) de forma a contemplar a solução de deposição em pasta, inviabiliza todo o projecto de exploração mineira.” Portanto, “nesta fase”, em que se procuram fazer as alterações a projectos não iniciados ou pelo menos não concluídos nem aprovados, para que os impactes sejam minimizados, a deposição em pasta inviabilizaria o projecto do lado da empresa. Logo, “nesta fase”, o país dá de barato a opinião dos técnicos do Ministério, que só estavam ali para cumprir calendário e nem se preocuparam com o que dá mais jeito à empresa.

Mas há mais: “De salientar também a exposição apresentada pela DGEG, na qualidade de entidade licenciadora, que advoga que no início da actividade ‘deve haver lugar à deposição subaquática que passará gradualmente a uma deposição em pasta mormente na fase de encerramento da instalação de resíduos’.” Os técnicos dos Ministérios que se entendam! Afinal, são dois projectos diferentes ou é apenas uma evolução “gradual” de um só projecto? Para a Autoridade de AIA, há que apresentar projectos completamente novos de barragem e escombreira; para a DGEG, transformam-se milhões de toneladas de rejeitados já em deposição subaquática, a custos muito mais módicos para a empresa, se esta apenas apresentar um projecto novo – perdão, adaptação do em curso – já com a exploração a decorrer?! Não ter de apresentar contas a provar o que se diz tem destes resultados!

E alguém não leu o Parecer, nas partes que explicam porque aparece esta opção de deposição em pasta??? É que não se trata de um capricho ou apenas de melhorar as condições de encerramento: tem a ver com a fauna, a poluição de aquíferos, os perigos de desastre ambiental – desde o início da mina!

Pode ler o texto completo do DIA em http://sniamb.apambiente.pt/diadigital/, ano 2013, processo 2620.

Uma nova geo-lógica dos dirigentes da Colt – 4

“Não haverá lamas tóxicas, nem são lamas que irão para a barragem de rejeitados, mas sim areias finas”: declaração intrigante do Eng.º Valente nas suas sessões de “esclarecimento”. “Areias finas”? Mas que importa? É que “lamas” evoca uma massa, mistura de líquido (em geral água) e partículas sólidas muito finas, portanto bastante instáveis, susceptíveis de ocasionar derrames (tóxicos, senão não seria um problema: os lodos acarretados pelo Nilo eram férteis…). Essas “areias finas”, prossegue o dirigente da Colt, depositar-se-ão, pela acção do seu próprio peso, no fundo da barragem; elas vão aglomerar-se, como aconteceu com as rochas [sedimentares], e formarão novas rochas. Elas serão assim tão estáveis como as formações rochosas donde provêm. Notável processo, de facto: a sedimentação das partículas sólidas por gravidade no seio dum líquido, a sua aglomeração e compactação, deram por exemplo aqueles calcários que “todos conhecemos”.

Há apenas dois pormenores que escapam aos leigos que somos. O primeiro diz respeito às condições de pressão a que são submetidos os sedimentos no fundo desses mares que habitavam os organismos cujas conchas (calcárias) se foram acumulando: são pressões que variam entre as que derivam de colunas de água de várias dezenas de metros, até à pressão de milhares de metros de água. A esta adiciona-se a pressão de centenas de metros de sedimentos por cima dos mais antigos.

O outro pormenor é o tempo. A sedimentação, a aglomeração e a compactação dos sedimentos que estão na origem das rochas sedimentares (e não só de calcários, aliás) são processos que levam dezenas de milhões de anos! Assim as nossas “areias finas” poderão dar de facto de novo rochas, se o nível do Atlântico aumentar pelo menos umas centenas de metros…e esperarmos uns milhões de anos. Correcto! Um processo importante contribui para a formação dessas rochas: a expulsão da água que a mistura de sedimentos (detrítica ou outra) contém.

Ora é aqui que surge uma dúvida: nos “rejeitados” a proporção entre elementos sólidos e líquidos é de 30/70 (diz o documento da Colt). Esta mistura, não contém apenas areias, mas também uma proporção indeterminada de elementos mais finos que a areia, os quais entram na classe (granulométrica) dos “silts” e das “argilas”. É o que faz das “polpas” (Colt)… lamas instáveis. Estas, ao serem acumuladas nas bacias de rejeitados, passam por estados mais ou menos húmidos, e encontram-se quase sempre em estados ditos “críticos”. Ou seja, no limiar entre o sólido e do líquido. O sólido é mecanicamente mais estável que o líquido. Quase todas as rupturas de barragens de rejeitados têm por causa… a liquefacção das lamas. Sob a acção dum choque (nova descarga de efluentes, sismo mesmo pequeno, chuva forte), a mistura que parecia sólida liquefaz-se, penetra nos poros dos solos e das barragens, rompe-as e derrama-se a jusante. A tal “rocha” em formação (para o que só faltam uns milhões de anos), subitamente (e este advérbio é estritamente exacto), convertem-se numa massa líquida ou quase líquida e rebentam com as barragens.

O processo é tão frequente, que M. P. Davies se interroga (ao fazer um balanço das rupturas de barragens de rejeitados nas Geotechnical News de 2002): “Será que os engenheiros geotécnicos estão a ouvir?”. Aparentemente, não. Mas nós, habitantes de São Brissos, de Valverde, de Guadalupe, e dali ao estuário do Sado, estaríamos todos a jusante dessa bomba ecológica, na Boa Fé. Estão a ouvir?

José Rodrigues dos Santos / CIDEHUS / Julho de 2013.

As estranhas afirmações dos dirigentes da Colt-3

“Não haverá lamas tóxicas na Boa Fé”, assim falou o Eng.º Valente, na reunião de esclarecimento na Câmara de Évora, assim afirmou o mesmo na sessão (de esclarecimento?) na Junta de Freguesia da Boa Fé.

1. A primeira afirmação que ouvimos, nega que os efluentes da lavaria sejam “lamas tóxicas”. “Não há substâncias tóxicas na lavaria” (ou a sair dela para a albufeira de rejeitados). “O que há é sulfato de cobre – esse toda a gente o conhece”. E o amilxantato de potássio (utilizado como flutuante / floculante) não é tóxico.

2. A segunda, é que não são “lamas” mas sim “areias finas”. Já veremos (em próximo post) qual é a diferença que se quer afirmar, e porquê.

Dizer que não há substâncias tóxicas nos rejeitados é uma falsidade enorme. Os produtos químicos utilizados na lavaria são tóxicos. O sulfato de cobre é-o a vários títulos: enquanto sulfato de cobre e enquanto… cobre. Na primeira forma (sulfato) ele é, em solução hídrica, fortemente ácido (sulfato de cobre = ácido sulfúrico + cobre) e por isso mesmo corrosivo. Ataca os organismos animais provocando queimaduras, irritações, danos nos órgãos internos em caso de absorção (por via respiratória ou digestiva). Tem efeitos letais sobre um grande número de organismos aquáticos (existem estudos científicos sobre os efeitos sobre peixes, batráquios, invertebrados, bactérias…). E, claro, esses estudos estão ao alcance de quem tiver a lealdade de os consultar antes de afirmar “as pessoas conhecem”, toda a gente utiliza, etc. Mas também tem efeitos tóxicos porque… contém cobre e este acumula-se nos solos, causando graves efeitos toxicológicos. Na mina da Boa Fé, a empresa prevê lançar na albufeira de rejeitados cerca de 1000 (mil) toneladas de sulfato de cobre por ano.

3. Adiciona-se a este quadro ecotoxicológico um segundo factor: o amilxantato de potássio, utilizado também aos milhares de toneladas no processo de lavagem do minério (“floculação”, que é a agregação do ouro a partículas que depois se depositam no fundo dos tanques). O produto que dá por este lindo nome é, desde logo, altamente inflamável, corrosivo, e exige precauções extremas na sua manipulação. Mas é também tóxico, especialmente para os organismos aquáticos (ou anfíbios, como os batráquios).

4. Para completar o quadro da “ausência de lamas tóxicas”, temos que mencionar os metais pesados e “metalóides”), entre os quais o arsénico é o mais abundante. Em cada tonelada de rochas extraídas das cortas, haveria (se esta loucura fosse avante), sete quilos de arsénio. Se contarmos (arredondando para baixo os números fornecidos pela empresa) que serão extraídas cerca de quinze milhões de toneladas de rochas (os três quartos das quais irão para a escombreira e um quarto para o rejeitados), teremos algo como 105.000 toneladas de arsénico a repartir entre escombreira e rejeitados. O arsénico? Um veneno letal, eficaz para outros crimes também: “Arsénico e rendas velhas”, escrevia a Agatha Christie.

Mas … e não são “areias finas” em vez de “lamas”? Já iremos ver as maravilhas geológico-conceptuais que os dirigentes da Colt nos servem à colherada. Espíritos mal-intencionados poderiam chamar-lhes “mentiras”…

José Rodrigues dos Santos / CIDEHUS / Évora, Julho de 2013.