Nem tudo o que luz é ouro

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A água, o nosso recurso mais precioso

Um passeio pela Serra de Monfurado, por qualquer uma das paisagens que envolvem a aldeia de Nossa Sra. da Boa Fé, revela a presença constante da água. Esta maravilhosa presença, que distingue a Boa Fé de tantas e tantas aldeias alentejanas, é visível através de abundantes manifestações naturais – como ribeiros e nascentes – e culturais – como poços, pontes e aquedutos. Apesar de tão forte presença do bem mais valioso para a vida, a empresa promotora do projecto mineiro não elaborou nenhum estudo minimamente aprofundado sobre o impacto que a exploração teria sobre os lençóis freáticos!

Para esta gente, primeiro, está o seu negócio; e só depois vem a nossa vida. Sabemos que, em capitalismo, essa é a ordem natural das coisas, a única ordem, aliás. Esperemos que para o poder autárquico recém eleito, que se diz contrário aos métodos do capitalismo mais selvagem, a água seja mais valiosa do que o ouro. Não disseram em campanha que “a água tem uma característica única: é um bem natural indispensável à vida humana” e que “Há que continuar o trabalho e a luta pelo reconhecimento e institucionalização da água como bem social, património de todos e direito humano!” (Carlos Pinto de Sá)? Disseram, e disseram muito bem.

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Para ver a reportagem fotográfica completa das mais diversas manifestações da presença da água na Boa Fé, feita este verão pelo morador na mesma aldeia Imme van den Berg, por favor, clique aqui.

Pedro Duarte

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A prospecção já provocou estragos!

A prospecção de ouro na zona dos Banhos – terceira área seleccionada pela Colt Resources, depois da Chaminé e de Casas Novas –, situada na herdade da Serra, no extremo norte da freguesia de Nossa Senhora da Boa Fé, já secou o Chafariz dos Arcos.

A abertura de furos próximo do chafariz provocou o rebaixamento dos níveis freáticos e o poço que alimentava o fontanário deixou de o fazer, porque praticamente não tem água.

Tanto quanto nos é dado saber, mesmo em anos muito secos o chafariz nunca secava; ora, no presente ano hidrológico, que foi muito chuvoso, apresenta um aspecto desolador como mostram as fotografias juntas.

fonte dos arcos 2

Embora um tanto degradado, o Chafariz dos Arcos, com muitas dezenas de anos, é uma obra engenhosa, construída em tijolo maciço, e com alguma beleza.

fonte dos arcos 1

É formado por dois módulos sobrepostos. A parte superior, suportada por arcos, constitui o bebedouro para os animais de maior porte como os bovinos. Na zona inferior, bebe o gado mais pequeno, como os ovinos e os suínos, introduzindo a cabeça nos vãos formados pelos arcos.

Infelizmente, confirmaram-se os nossos piores receios e bastaram alguns furos para afectar uma nascente – e quem sabe se outras mais a jusante a que não tivemos acesso.

Pode acontecer que, em toda aquela área, os níveis freáticos vão descendo e o montado de sobro fique afectado, com morte de algumas árvores.

Encontramos vários furos na encosta da serra, três deles com artesianismo positivo, isto é, em que a água brota naturalmente à superfície do solo e escorre pelos terrenos.

Tudo isto se passa numa zona de grande beleza, densamente arborizada, na vertente norte da Serra do Conde, em cujo cimo fica um marco geodésico que assinala o ponto mais alto da freguesia.

Devemos estar atentos ao evoluir da situação e alertar as entidades competentes para o que está a acontecer.

Francisco Bisca

A questão das águas subterrâneas

Temos dificuldade em saber o que se passa debaixo do chão. Só mediante estudos aprofundados e aplicação de modelos apoiados em dados de campo se conseguirá ter uma ideia mais rigorosa, ainda que nunca completa, do comportamento de um aquífero como o da zona das minas da Boa Fé.
Está situado no maciço antigo, em que a geologia dos terrenos é muito complexa e heterogénea, com muitas falhas e descontinuidades, e em que o armazenamento e a circulação das águas subterrâneas ocorrem em zonas preferenciais. Portanto, é provável que o abaixamento dos níveis freáticos não seja uniforme.
O estudo das águas subterrâneas anexo ao EIA limita-se a referir questões genéricas que poderão ocorrer em situações hidrogeológicas semelhantes. E não parece que os estudos que a Colt diz agora que está a fazer para colmatar esta lacuna possam adiantar muito mais. Vejamos o que nos é dado saber sobre
  1. Volumes de água aproximados, extraídos durante os cerca de 5 anos de laboração da mina, 2 anos e meio em cada corta
  2. Afectação do coberto arbóreo e arbustivo da Serra da Loba, situada na Rede Natura 2000
  3. Interferência conjunta das três zonas de extracção
Ler texto de Francisco Bisca

Consequências sobre a vegetação da interferência nas águas subterrâneas

O abaixamento dos níveis freáticos que provocaria o projecto mineiro da Boa Fé tal como está formulado no Estudo de Impacte Ambiental (EIA) resultaria de três processos cuja acção se adiciona:
  1. A cava dos dois “gigantescos poços drenantes” (termos do EIA) que seriam as cortas das Casas Novas e da Chaminé, com cerca de seis hectares de boca e respectivamente 90 m e 120 m de profundidade, que fariam baixar os níveis freáticos “superficiais” (situados entre 8 e 20 m).
  2. O agravamento da fracturação e da fissuração do maciço rochoso “profundo” (entre os 10 a 20 m e pelo menos a profundidade das cortas – 120 m), que provocará o aumento da perda de água pelos aquíferos superficiais, aumentando a infiltração por falhas e fissuras.
  3. A extracção de águas através os furos previstos no projecto mineiro.
Por seu turno, esse abaixamento dos níveis freáticos (que o projecto mineiro prevê) teria as principais consequências seguintes:
  1. Esgotamento dos poços existentes na área (profundidade em geral entre 8 e 10m), perda de nascentes, diminuição da produtividade ou seca dos furos de captação existentes.
  2. Graves distúrbios no que concerne à flora local, sendo principalmente afectado o coberto arbóreo (sobreiros, azinheiras, árvores diversas das galerias ripícolas, ou seja dos ribeiros). Enquanto todo o coberto arbóreo seria afectado, o sobral, menos xerófilo que o azinhal, seria dizimado.
Consideramos que os estudos feitos até hoje e nos quais se pretende justificar os projecto mineiro não tratam de modo completo, nem sequer suficiente, todas estas questões.
Ler texto de José Rodrigues dos Santos