Nem tudo o que luz é ouro

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Os bónus que não queremos – 2

Recuperação sequencial das cortas
Em ambas as cortas (…), à medida que a exploração for avançando em profundidade, proceder-se-á à recuperação sequencial das bancadas superficiais até às cotas das quais se espera que as áreas de escavação venham a ficar submersas na água que, na situação final de exploração (cessando a bombagem), se acumulará no interior das cortas, dando lugar a duas lagoas. (…) As bancadas de desmonte deverão formar taludes com 10 m de altura e pisos de transição finais com 5 m de largura.
Os patamares das bancadas serão também regularizados para possibilitar as acções de plantação e sementeira. Nesses patamares serão abertas covas em linha, com recurso a perfuração pneumática e explosivos, segundo o compasso na figura seguinte, devendo garantir-se dimensões de 0,80 m de diâmetro por 1,00m de profundidade para as covas de plantação e de 0,40 m de diâmetro por 0,50 m de profundidade para as covas de sementeira. Após devidamente libertas de pedras soltas, as covas serão preenchidas pelas terras vegetais armazenadas nas pargas. Nas covas serão plantadas árvores e, entre elas, semeados arbustos. (…) Os exemplares de pinheiro-manso não deverão exceder os 50 cm (…) Em cada corta será instalado um sistema de rega automático, com abastecimento de água a partir da própria corta (água de drenagem da corta).

parp pinheiros

in “Plano Ambiental e de Recuperação Paisagística”, Geomega para Aurmont Resources – Julho de 2012 e incluído no Estudo de Impacte Ambiental

As histórias de fadas são maravilhosas e irreais. Não temos de acreditar nelas, mas passam-se uns momentos felizes a imaginar que belo é o mundo da magia! Nos clássicos, as minas são subterrâneas. Temos aqui a versão a céu aberto: duas lindas lagoas, armazenando água cristalina, abundantemente ajardinadas de pinheiros em toda a volta. Se estivessem à escala no desenho, ainda tão jovens, já teriam pelo menos uns 4 m de altura. Os taludes é que estão um bocadinho marrecos,que se anunciam bastante mais altos (10m).
Depois, fechamos o Estudo, entramos na Internet e caímos na dura realidade…

corta atalaya

Corta Atalaya, Huelva – Espanha. Abandonada desde 1992, estava assim “florestada” em 2008. Em 2007, nova empresa ficou com a exploração. Para poder recomeçar a laborar, projectavam gastar 18,5 milhões de euros em limpeza e rearranque das operações. Uma coisa é certa: não foi a limpar folhas mortas que os gastaram…

corta atalaya2

É nisto que vão plantar pinheiros? Que crescerão e sobreviverão em buracos abertos a explosivos, com 1mx0,80m? Afinal, qualquer vaso grande numa varanda pode dar pinhões!?!
Não vamos estragar esta linda história alvitrando o pH da água das cortas, com que querem regar esses pinheirinhos…
Onde é que este projecto já foi aplicado? Mesmo que sem sucesso, claro.
Sinceramente: gostávamos, mas não acreditamos.
ACP
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Os bónus que não queremos – 1

“Medidas a implementar no imediato (Fase I)
Estas medidas destinam-se a ser implantadas logo na fase de instalação do projecto e visam preservar os solos a remover das áreas do projecto, proteger as áreas naturais envolventes e compensar o abate de árvores (sobreiros e azinheiras) que está previsto no projecto. (…)
Das decapagens dos terrenos, a realizar nas áreas a afectar ao projecto – cortas, escombreira, lavaria e barragem de rejeitados, incluindo acessos interiores -, estima-se que resultem cerca de 240.000 m3 de terras vegetais”

in “Plano Ambiental e de Recuperação Paisagística”, Geomega para Aurmont Resources – Julho de 2012 e incluído no Estudo de Impacte Ambiental

?????????????????????????????????????????????????Imagem de desflorestação para abertura de mina na Tasmânia (Austrália)

A ver se nos entendemos: presume-se que os actuais proprietários de 6952 sobreiros e azinheiras adultos vão ser indemnizados pelos prejuízos na produção. Mas não é por isso que a legislação protege os sobreiros: “De facto, os povoamentos destas espécies, nomeadamente os sistemas com aproveitamento agro-silvopastoril conhecidos por «montados», incluem alguns dos biótopos mais importantes ocorrentes em Portugal continental em termos de conservação da natureza, desempenhando, pela sua adaptação às condições edafo-climáticas do Sul do País, uma importante função na conservação do solo, na regularização do ciclo hidrológico e na qualidade da água.” Diz o dec.-lei nº169/2001, sobre “estes sistemas agro-florestais, produzidos e mantidos ao longo de gerações pelos agricultores”.
É um amontoado de árvores novinhas, a jusante da barragem de rejeitados, que pode garantir tudo isto, deixando carecas 99 ha de zonas ricamente irrigadas – e contaminadas?
Não, não queremos!
ACP