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Dilemas da arbitragem Economia vs. Ambiente

José Rodrigues dos Santos

“Devorámos a floresta”

Este foi o título que o antropólogo francês com ascendência portuguesa, Georges Condominas, deu ao seu livro de 1957, retirado da experiência de terreno na antiga “Indochina Francesa”, onde se instalou em 1949. O título transcreve uma expressão local da comunidade Hmong, que traduz o arroteamento da floresta e seu esgotamento ao fim de alguns anos. Queimando e arrancando as árvores, os Hmong criavam campos cultiváveis que lhes eram indispensáveis para subsistir. Mas os terrenos tropicais, sujeitos a forte erosão, depressa se esgotavam, exigindo a deslocação para outras florestas, novo desmatamento, etc. Os Hmong tinham clara consciência de retirar da floresta o seu sustento mas também do carácter destruidor desse consumo: eles diziam que “comiam a floresta”. O mundo actual debate-se com o dilema exemplificado pelos Hmong, mas agora a uma escala planetária, com uma consequência inaudita: a essa escala, não existe outro planeta para onde migrar à procura de novos terrenos que garantam a subsistência.
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Drenagem ácida das minas e escombreiras

No Plano Conceptual de Encerramento da Barragem de Rejeitados do Estudo de Impacte Ambiental da exploração mineira prevista para a Boa Fé, um dos riscos analisados é: “a qualidade da água que escoa através da escombreira excede o critério definido por lei devido sobretudo à lixiviação de metais nos resíduos. Causas possíveis: lixiviação dos escombros.” A empresa considera o risco “Moderado”.
E no entanto, técnicos de todo o mundo vêm considerando a drenagem ácida das minas e contaminantes a ela associados o maior problema ambiental enfrentado pela indústria mineira. Além da influência dos ácidos nas águas superficiais, a drenagem ácida a partir de escombreiras pode provocar a lixiviação de metais como arsénio, cádmio, cobre, prata e zinco. Essa carga de metais pesados causa ainda mais danos e é mais preocupante em termos ambientais do que a própria acidez.
Antes da extracção, a oxidação dos minerais não perturbados, contidos na rocha, provoca uma libertação lenta de ácido e de metais, que representam uma ameaça muito pequena para os ecossistemas. As operações de extracção vão aumentar a produção dessas reacções químicas, ao exporem grandes volumes de rocha ao ar e à água, ingredientes fundamentais para gerar drenagem ácida.
Acresce que, praticamente para cada metal, existe pelo menos uma bactéria capaz de acelerar a oxidação. Durante o processo de oxidação, a água serve, pois, como reagente e como meio ambiente para essas bactérias. No final, ainda faz a drenagem dos ácidos e metais libertados.
O tamanho das partículas, a permeabilidade da escombreira e as características do clima são importantes para a avaliação do potencial de produção de ácido. Com o tempo, o tamanho das partículas vai-se reduzindo, expondo mais área e alterando as características físicas da unidade no longo prazo. A drenagem ácida é, portanto, uma actividade contínua e que dura toda a vida da escombreira.
Para a Boa Fé, prevêem-se 37 ha de base para essa instalação: uma montanha de fragmentos de rocha activamente poluente, numa área que é um terço do centro histórico de Évora!
Leia aqui a introdução de um estudo oficial norte-americano sobre drenagem ácida das rochas