Nem tudo o que luz é ouro

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Category Archives: Cortas

Uma nova geo-lógica dos dirigentes da Colt – 4

“Não haverá lamas tóxicas, nem são lamas que irão para a barragem de rejeitados, mas sim areias finas”: declaração intrigante do Eng.º Valente nas suas sessões de “esclarecimento”. “Areias finas”? Mas que importa? É que “lamas” evoca uma massa, mistura de líquido (em geral água) e partículas sólidas muito finas, portanto bastante instáveis, susceptíveis de ocasionar derrames (tóxicos, senão não seria um problema: os lodos acarretados pelo Nilo eram férteis…). Essas “areias finas”, prossegue o dirigente da Colt, depositar-se-ão, pela acção do seu próprio peso, no fundo da barragem; elas vão aglomerar-se, como aconteceu com as rochas [sedimentares], e formarão novas rochas. Elas serão assim tão estáveis como as formações rochosas donde provêm. Notável processo, de facto: a sedimentação das partículas sólidas por gravidade no seio dum líquido, a sua aglomeração e compactação, deram por exemplo aqueles calcários que “todos conhecemos”.

Há apenas dois pormenores que escapam aos leigos que somos. O primeiro diz respeito às condições de pressão a que são submetidos os sedimentos no fundo desses mares que habitavam os organismos cujas conchas (calcárias) se foram acumulando: são pressões que variam entre as que derivam de colunas de água de várias dezenas de metros, até à pressão de milhares de metros de água. A esta adiciona-se a pressão de centenas de metros de sedimentos por cima dos mais antigos.

O outro pormenor é o tempo. A sedimentação, a aglomeração e a compactação dos sedimentos que estão na origem das rochas sedimentares (e não só de calcários, aliás) são processos que levam dezenas de milhões de anos! Assim as nossas “areias finas” poderão dar de facto de novo rochas, se o nível do Atlântico aumentar pelo menos umas centenas de metros…e esperarmos uns milhões de anos. Correcto! Um processo importante contribui para a formação dessas rochas: a expulsão da água que a mistura de sedimentos (detrítica ou outra) contém.

Ora é aqui que surge uma dúvida: nos “rejeitados” a proporção entre elementos sólidos e líquidos é de 30/70 (diz o documento da Colt). Esta mistura, não contém apenas areias, mas também uma proporção indeterminada de elementos mais finos que a areia, os quais entram na classe (granulométrica) dos “silts” e das “argilas”. É o que faz das “polpas” (Colt)… lamas instáveis. Estas, ao serem acumuladas nas bacias de rejeitados, passam por estados mais ou menos húmidos, e encontram-se quase sempre em estados ditos “críticos”. Ou seja, no limiar entre o sólido e do líquido. O sólido é mecanicamente mais estável que o líquido. Quase todas as rupturas de barragens de rejeitados têm por causa… a liquefacção das lamas. Sob a acção dum choque (nova descarga de efluentes, sismo mesmo pequeno, chuva forte), a mistura que parecia sólida liquefaz-se, penetra nos poros dos solos e das barragens, rompe-as e derrama-se a jusante. A tal “rocha” em formação (para o que só faltam uns milhões de anos), subitamente (e este advérbio é estritamente exacto), convertem-se numa massa líquida ou quase líquida e rebentam com as barragens.

O processo é tão frequente, que M. P. Davies se interroga (ao fazer um balanço das rupturas de barragens de rejeitados nas Geotechnical News de 2002): “Será que os engenheiros geotécnicos estão a ouvir?”. Aparentemente, não. Mas nós, habitantes de São Brissos, de Valverde, de Guadalupe, e dali ao estuário do Sado, estaríamos todos a jusante dessa bomba ecológica, na Boa Fé. Estão a ouvir?

José Rodrigues dos Santos / CIDEHUS / Julho de 2013.

Os bónus que não queremos – 2

Recuperação sequencial das cortas
Em ambas as cortas (…), à medida que a exploração for avançando em profundidade, proceder-se-á à recuperação sequencial das bancadas superficiais até às cotas das quais se espera que as áreas de escavação venham a ficar submersas na água que, na situação final de exploração (cessando a bombagem), se acumulará no interior das cortas, dando lugar a duas lagoas. (…) As bancadas de desmonte deverão formar taludes com 10 m de altura e pisos de transição finais com 5 m de largura.
Os patamares das bancadas serão também regularizados para possibilitar as acções de plantação e sementeira. Nesses patamares serão abertas covas em linha, com recurso a perfuração pneumática e explosivos, segundo o compasso na figura seguinte, devendo garantir-se dimensões de 0,80 m de diâmetro por 1,00m de profundidade para as covas de plantação e de 0,40 m de diâmetro por 0,50 m de profundidade para as covas de sementeira. Após devidamente libertas de pedras soltas, as covas serão preenchidas pelas terras vegetais armazenadas nas pargas. Nas covas serão plantadas árvores e, entre elas, semeados arbustos. (…) Os exemplares de pinheiro-manso não deverão exceder os 50 cm (…) Em cada corta será instalado um sistema de rega automático, com abastecimento de água a partir da própria corta (água de drenagem da corta).

parp pinheiros

in “Plano Ambiental e de Recuperação Paisagística”, Geomega para Aurmont Resources – Julho de 2012 e incluído no Estudo de Impacte Ambiental

As histórias de fadas são maravilhosas e irreais. Não temos de acreditar nelas, mas passam-se uns momentos felizes a imaginar que belo é o mundo da magia! Nos clássicos, as minas são subterrâneas. Temos aqui a versão a céu aberto: duas lindas lagoas, armazenando água cristalina, abundantemente ajardinadas de pinheiros em toda a volta. Se estivessem à escala no desenho, ainda tão jovens, já teriam pelo menos uns 4 m de altura. Os taludes é que estão um bocadinho marrecos,que se anunciam bastante mais altos (10m).
Depois, fechamos o Estudo, entramos na Internet e caímos na dura realidade…

corta atalaya

Corta Atalaya, Huelva – Espanha. Abandonada desde 1992, estava assim “florestada” em 2008. Em 2007, nova empresa ficou com a exploração. Para poder recomeçar a laborar, projectavam gastar 18,5 milhões de euros em limpeza e rearranque das operações. Uma coisa é certa: não foi a limpar folhas mortas que os gastaram…

corta atalaya2

É nisto que vão plantar pinheiros? Que crescerão e sobreviverão em buracos abertos a explosivos, com 1mx0,80m? Afinal, qualquer vaso grande numa varanda pode dar pinhões!?!
Não vamos estragar esta linda história alvitrando o pH da água das cortas, com que querem regar esses pinheirinhos…
Onde é que este projecto já foi aplicado? Mesmo que sem sucesso, claro.
Sinceramente: gostávamos, mas não acreditamos.
ACP