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Os Estranhos “raciocínios” dos dirigentes da Colt-2

Os autores da emissão “Biosfera” consagrada ao projecto mineiro da Boa Fé fizeram uma montagem cuidadosa na qual alternam argumentos críticos em relação ao projecto mineiro e “respostas” dum destacado dirigente da empresa mineira, o Eng.º Luís Martins. Evocando uma crítica que fizemos à recusa da Colt em subscrever um contrato de seguros contra os riscos decorrentes do projecto mineiro (riscos ligados ao funcionamento “normal” da laboração e das estruturas – instalações, escombreira, barragem de rejeitados, e riscos ligados a possíveis acidentes), o representante da Colt contrapõe que a empresa já efectua (efectuará?) um depósito junto do Estado, para servir de garantia contra os riscos. Donde a conclusão que poderá parecer lógica: não é razoável exigir dois seguros, até porque efectuar o depósito também tem os seus custos. Assim é evacuada a exigência de seguros. O telespectador, que não detém toda a informação necessária, tenderá a pensar que o senhor e o seu argumento são razoáveis.
Valham-nos os deuses dos números, que estamos a lidar com engenheiros! O “depósito de garantia” feito (ou a fazer, não pudemos confirmar) pela empresa junto do Estado português ronda os 300.000 a 400.000€. O que representam quatrocentos mil euros na economia do projecto? Só as obrigações ambientais ligadas ao encerramento da mina (aterros, plantações, etc.), são estimadas no projecto entre 1 e 2 milhões de euros (“1,4M€, mais ou menos 40%”, diz o projecto). Se a empresa “poupar” em todas as obrigações de encerramento (não fazendo nenhuma), perde 400 mil € mas “poupa” 1 a 2 M€.
Então e os riscos de acidentes, e os respectivos custos? Cobertos pelos 400 mil €? Um exemplo da nossa vizinha e querida Andaluzia: após o desastre ecológico da mina de Aznacóllar, em Doñana (1998), os custos de reparação foram estimados em cerca de 240 milhões de euros. Mas como a empresa mineira (uma filial local da sueca Boliden) foi à falência, o Governo autonómico da Andaluzia e o governo Central espanhol andam há quinze anos de tribunal em tribunal, reclamando uma indemnização dos custos do desastre, à altura de 185 milhões de euros (no acidente de Baia Mare, na Roménia, foram 300 milhões e em Kolontár, Hungria, 2010, 240 milhões). O estudo da Colt termina com uma declaração deliciosa: “os riscos de ruptura da barragem de rejeitados permaecerão por muitos anos”: obrigado, Colt. Os dirigentes da Aurmont Resources, filial (unipessoal com capital social de 5000€ – não é lapso, não faltam zeros, é cinco mil) da Colt não precisam de se preocupar: em caso de acidente grave, os quatrocentos mil euros servem de … seguro.
Quanto à colectividade (local, autárquica, central – o Estado Português), ela aqui estará para arcar com os custos que ultrapassem essa avultada soma de 400.000. Ah, senhores engenheiros, a aritmética mais simples infelizmente chega para mostrar a vossa Má Fé! Ou preferem um desenho?
JRdS

Os estranhos raciocínios dos dirigentes da Colt (I): “Não se pode ficar ligado para sempre”

Na emissão “Biosfera” que passou na RTP2, pudemos ouvir um dirigente da Colt “responder” à nossa afirmação segundo a qual o projecto mineiro iria, após encerramento, deixar para a colectividade um pesado encargo: monitorização, manutenção, eventual construção de estação especializada de tratamento de efluentes industriais (da escombreira e da barragem de rejeitados). Para além dos estragos ambientais que já denunciámos (inevitáveis se tudo se fizesse como a Colt prevê), esses encargos durariam por muitas décadas, sem fim à vista, como ficou demonstrado nos nossos estudos.
O que dizia o dirigente da Colt, Eng.º Luís Martins, na sua entrevista? Que a empresa se encontraria na situação de qualquer inquilino que sai duma casa arrendada (“porque isto não nos pertence, é só arrendado”): o proprietário (“senhorio”) faz uma vistoria ao estado da casa, e se tudo estiver como combinado, o inquilino sai e deixa de ter responsabilidades no que possa acontecer: “não se pode ficar ligado para sempre”.
A comparação é absurda: ninguém aluga uma “casa” com um magnífico parque com árvores centenárias, ribeiros impolutos, nascentes e poços intactos, fauna e flora ricas e diversas, para que um “inquilino” escave buracos de dezenas ou centenas de metros, abandone ribeiros entulhados e fontes secas, deixe montões de matérias tóxicas, e aceite tomar conta da gestão do desastre por um período indeterminado. Ou seria um louco.

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“A highly speculative activity”*, dizem os relatórios de contas da Colt

“Uma actividade altamente especulativa” – mas a especulação nem sempre evolui como os especuladores querem… Veja-se a cotação da Colt na Bolsa de Frankfurt, em 1-06-2013. Um ano de queda. Enquanto não houver estragos irremediáveis de exploração, podem ir à falência sem que nos preocupemos. Mas depois de começarem as escavações?
Colt na bolsa Junho 2013
* in Colt Resources, Condensed Interim Consolidated Financial Statements, September 30, 2012