Nem tudo o que luz é ouro

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Monthly Archives: Julho 2013

A prospecção já provocou estragos!

A prospecção de ouro na zona dos Banhos – terceira área seleccionada pela Colt Resources, depois da Chaminé e de Casas Novas –, situada na herdade da Serra, no extremo norte da freguesia de Nossa Senhora da Boa Fé, já secou o Chafariz dos Arcos.

A abertura de furos próximo do chafariz provocou o rebaixamento dos níveis freáticos e o poço que alimentava o fontanário deixou de o fazer, porque praticamente não tem água.

Tanto quanto nos é dado saber, mesmo em anos muito secos o chafariz nunca secava; ora, no presente ano hidrológico, que foi muito chuvoso, apresenta um aspecto desolador como mostram as fotografias juntas.

fonte dos arcos 2

Embora um tanto degradado, o Chafariz dos Arcos, com muitas dezenas de anos, é uma obra engenhosa, construída em tijolo maciço, e com alguma beleza.

fonte dos arcos 1

É formado por dois módulos sobrepostos. A parte superior, suportada por arcos, constitui o bebedouro para os animais de maior porte como os bovinos. Na zona inferior, bebe o gado mais pequeno, como os ovinos e os suínos, introduzindo a cabeça nos vãos formados pelos arcos.

Infelizmente, confirmaram-se os nossos piores receios e bastaram alguns furos para afectar uma nascente – e quem sabe se outras mais a jusante a que não tivemos acesso.

Pode acontecer que, em toda aquela área, os níveis freáticos vão descendo e o montado de sobro fique afectado, com morte de algumas árvores.

Encontramos vários furos na encosta da serra, três deles com artesianismo positivo, isto é, em que a água brota naturalmente à superfície do solo e escorre pelos terrenos.

Tudo isto se passa numa zona de grande beleza, densamente arborizada, na vertente norte da Serra do Conde, em cujo cimo fica um marco geodésico que assinala o ponto mais alto da freguesia.

Devemos estar atentos ao evoluir da situação e alertar as entidades competentes para o que está a acontecer.

Francisco Bisca
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Grandes números – 3: Poeira para os olhos

O projecto prevê um consumo anual da ordem de 340 toneladas de explosivos, 2.000 unidades de detonadores micro-retardados, 7.000 unidades de ligadores e 138.000 metros de cordão detonante.

Estudo de Impacte Ambiental – Relatório de Síntese

Na Boa Fé, duas explosões por dia. 

Os impactes “não se afiguram relevantes”, afirma o Estudo de Impacte Ambiental.

Qual é a composição e alcance destas poeiras?, perguntamos nós.

E amavelmente, esquecemos as questões do ruído e da vibração – por agora…

Uma tonelada de explosivos por dia é a dose recomendada para uma população padecendo de quê, ao certo? Ah, de falta de emprego! Que tal investir em actividades realmente sustentáveis e produtivas, dando uma vida digna aos habitantes, em vez deste triste quotidiano?

acp

Um futuro chamado ouro

Como é que nos foi apresentado o furor mineiro de solução para a economia nacional? “O sector mineiro é um dos motores da retoma da economia. Irá criar postos de trabalho e aumentar a carga fiscal para o Estado” – Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, em Novembro de 2011.

É o que se chama azar: um motor tão bom, tão novo, em que o Estado só tinha de entregar a terceiros a riqueza do subsolo e recolher migalhas pela sua ideia de génio… e o ouro entra em queda logo no ano a seguir. Podia ter sido dentro de três, quatro, seis anos – porque todos sabem que ela acontece ciclicamente. Mas não. Ainda a concessão plena não tinha sido dada a uma sólida empresa canadiana sem capital nem experiência de exploração, representada por uma fachada nacional de 5.000 euros, e já o sector mineiro de exploração do ouro está a encolher a olhos vistos!

E qual é o futuro que se perfila para este sector? Nick Holland, director executivo da Gold Fields da África do Sul, a 8ª maior empresa de mineração de ouro do mundo, não hesita: congelar ou cancelar projectos novos pode ser uma boa solução para a actividade de mineração do ouro a longo prazo. “Vamos aumentar a disciplina de fornecimento na actividade do ouro ao longo do tempo“, porque “uma grande fatia de produção marginal não devia realmente ter sido lançada ou construída” durante o boom dos preços do ouro da última década.

É triste que sejam razões de mercado a poder salvar a Serra de Monfurado – que não está garantida, apenas adiada! Mas aos grandes executivos do sector, o governo dará certamente ouvidos. Afinal, eles não são como esses malucos que andam para aí a dizer que a exploração do ouro é meramente especulativa. Uops, os grandes executivos também o dizem! Só que isso lhes parece excelente… em momento de alta de preços.

As serras é que ficam perpetuamente lesadas – independentemente dos lucros ou “congelamentos” de uns quantos. E as pessoas perdem os empregos na hora, a saúde e os meios de subsistência para o resto da vida.

acp
Ver o artigo lido no Bullion Vault (site para investidores em ouro), de 17/Jul/2013
original: http://goldnews.bullionvault.com/gold-mining-071720135 
tradução abaixo

LER MAIS

Pagar para… vender uma instalação mineira?

Parece o mundo às avessas, não é? Mas é assim mesmo: ficar com as instalações mineiras, só se a companhia pagar!
Rio Tinto, companhia australiana dedicada à indústria mineira, vai ceder a sua fábrica de alumínio de St. Jean de Maurienne (departamento da Saboia, nos Alpes, França), a um consórcio franco-alemão, com participação do Estado francês (5%). Rio Tinto declarou a sua intenção de encerrar esta fábrica há mais dum ano, deixando no desemprego 510 trabalhadores directos e cerca de 2000 outros indirectos (subcontratantes). Ao contrário do que acontece geralmente, neste caso é o vendedor que tem que pagar ao comprador. Rio Tinto vai pagar ao novo consórcio cerca de 100 milhões de euros, soma que corresponde aos custos de despoluição do sítio, que Rio Tinto teria que suportar se quisesse mesmo encerrar. Temos aqui uma ordem de ideias dos custos de reparação da poluição resultante da indústria mineira: contam-se sempre em milhões (e quase sempre em centenas de milhões) de euros.
Mas podemos tomar nota duma informação importante: a mina e as suas instalações valem ZERO euros; e o Estado francês considera que já é “bom” conseguir obter… o pagamento dos custos de reparação ecológica do sítio… Amargo negócio para a colectividade! JRdS
Ver mais pormenores aqui.000163506_5-rio-tinto

Uma nova geo-lógica dos dirigentes da Colt – 4

“Não haverá lamas tóxicas, nem são lamas que irão para a barragem de rejeitados, mas sim areias finas”: declaração intrigante do Eng.º Valente nas suas sessões de “esclarecimento”. “Areias finas”? Mas que importa? É que “lamas” evoca uma massa, mistura de líquido (em geral água) e partículas sólidas muito finas, portanto bastante instáveis, susceptíveis de ocasionar derrames (tóxicos, senão não seria um problema: os lodos acarretados pelo Nilo eram férteis…). Essas “areias finas”, prossegue o dirigente da Colt, depositar-se-ão, pela acção do seu próprio peso, no fundo da barragem; elas vão aglomerar-se, como aconteceu com as rochas [sedimentares], e formarão novas rochas. Elas serão assim tão estáveis como as formações rochosas donde provêm. Notável processo, de facto: a sedimentação das partículas sólidas por gravidade no seio dum líquido, a sua aglomeração e compactação, deram por exemplo aqueles calcários que “todos conhecemos”.

Há apenas dois pormenores que escapam aos leigos que somos. O primeiro diz respeito às condições de pressão a que são submetidos os sedimentos no fundo desses mares que habitavam os organismos cujas conchas (calcárias) se foram acumulando: são pressões que variam entre as que derivam de colunas de água de várias dezenas de metros, até à pressão de milhares de metros de água. A esta adiciona-se a pressão de centenas de metros de sedimentos por cima dos mais antigos.

O outro pormenor é o tempo. A sedimentação, a aglomeração e a compactação dos sedimentos que estão na origem das rochas sedimentares (e não só de calcários, aliás) são processos que levam dezenas de milhões de anos! Assim as nossas “areias finas” poderão dar de facto de novo rochas, se o nível do Atlântico aumentar pelo menos umas centenas de metros…e esperarmos uns milhões de anos. Correcto! Um processo importante contribui para a formação dessas rochas: a expulsão da água que a mistura de sedimentos (detrítica ou outra) contém.

Ora é aqui que surge uma dúvida: nos “rejeitados” a proporção entre elementos sólidos e líquidos é de 30/70 (diz o documento da Colt). Esta mistura, não contém apenas areias, mas também uma proporção indeterminada de elementos mais finos que a areia, os quais entram na classe (granulométrica) dos “silts” e das “argilas”. É o que faz das “polpas” (Colt)… lamas instáveis. Estas, ao serem acumuladas nas bacias de rejeitados, passam por estados mais ou menos húmidos, e encontram-se quase sempre em estados ditos “críticos”. Ou seja, no limiar entre o sólido e do líquido. O sólido é mecanicamente mais estável que o líquido. Quase todas as rupturas de barragens de rejeitados têm por causa… a liquefacção das lamas. Sob a acção dum choque (nova descarga de efluentes, sismo mesmo pequeno, chuva forte), a mistura que parecia sólida liquefaz-se, penetra nos poros dos solos e das barragens, rompe-as e derrama-se a jusante. A tal “rocha” em formação (para o que só faltam uns milhões de anos), subitamente (e este advérbio é estritamente exacto), convertem-se numa massa líquida ou quase líquida e rebentam com as barragens.

O processo é tão frequente, que M. P. Davies se interroga (ao fazer um balanço das rupturas de barragens de rejeitados nas Geotechnical News de 2002): “Será que os engenheiros geotécnicos estão a ouvir?”. Aparentemente, não. Mas nós, habitantes de São Brissos, de Valverde, de Guadalupe, e dali ao estuário do Sado, estaríamos todos a jusante dessa bomba ecológica, na Boa Fé. Estão a ouvir?

José Rodrigues dos Santos / CIDEHUS / Julho de 2013.

Parabéns para nós!

Não resisti: estava mesmo a apetecer-me dar-nos os parabéns a todos por este mês de blogue, aos que o mantêm e aos que o lêem. Parece que já começámos esta luta há muito e, afinal, ainda foi há bem pouquinho. E o que já aprendemos!

Em jeito de comemoração, Rodrigues dos Santos desmistifica mais uns raciocínios falaciosos da Colt e temos a partir de agora um texto bastante completo, da autoria de Francisco Bisca, a “mostrar” ao mundo internético a freguesia da Boa Fé, vista por quem lá nasceu, cresceu e continua a viver sempre que pode. Está no separador O lugar/Aldeia da Boa Fé.

Continuemos a jornada a este ritmo, e vamos longe!

acp

As estranhas afirmações dos dirigentes da Colt-3

“Não haverá lamas tóxicas na Boa Fé”, assim falou o Eng.º Valente, na reunião de esclarecimento na Câmara de Évora, assim afirmou o mesmo na sessão (de esclarecimento?) na Junta de Freguesia da Boa Fé.

1. A primeira afirmação que ouvimos, nega que os efluentes da lavaria sejam “lamas tóxicas”. “Não há substâncias tóxicas na lavaria” (ou a sair dela para a albufeira de rejeitados). “O que há é sulfato de cobre – esse toda a gente o conhece”. E o amilxantato de potássio (utilizado como flutuante / floculante) não é tóxico.

2. A segunda, é que não são “lamas” mas sim “areias finas”. Já veremos (em próximo post) qual é a diferença que se quer afirmar, e porquê.

Dizer que não há substâncias tóxicas nos rejeitados é uma falsidade enorme. Os produtos químicos utilizados na lavaria são tóxicos. O sulfato de cobre é-o a vários títulos: enquanto sulfato de cobre e enquanto… cobre. Na primeira forma (sulfato) ele é, em solução hídrica, fortemente ácido (sulfato de cobre = ácido sulfúrico + cobre) e por isso mesmo corrosivo. Ataca os organismos animais provocando queimaduras, irritações, danos nos órgãos internos em caso de absorção (por via respiratória ou digestiva). Tem efeitos letais sobre um grande número de organismos aquáticos (existem estudos científicos sobre os efeitos sobre peixes, batráquios, invertebrados, bactérias…). E, claro, esses estudos estão ao alcance de quem tiver a lealdade de os consultar antes de afirmar “as pessoas conhecem”, toda a gente utiliza, etc. Mas também tem efeitos tóxicos porque… contém cobre e este acumula-se nos solos, causando graves efeitos toxicológicos. Na mina da Boa Fé, a empresa prevê lançar na albufeira de rejeitados cerca de 1000 (mil) toneladas de sulfato de cobre por ano.

3. Adiciona-se a este quadro ecotoxicológico um segundo factor: o amilxantato de potássio, utilizado também aos milhares de toneladas no processo de lavagem do minério (“floculação”, que é a agregação do ouro a partículas que depois se depositam no fundo dos tanques). O produto que dá por este lindo nome é, desde logo, altamente inflamável, corrosivo, e exige precauções extremas na sua manipulação. Mas é também tóxico, especialmente para os organismos aquáticos (ou anfíbios, como os batráquios).

4. Para completar o quadro da “ausência de lamas tóxicas”, temos que mencionar os metais pesados e “metalóides”), entre os quais o arsénico é o mais abundante. Em cada tonelada de rochas extraídas das cortas, haveria (se esta loucura fosse avante), sete quilos de arsénio. Se contarmos (arredondando para baixo os números fornecidos pela empresa) que serão extraídas cerca de quinze milhões de toneladas de rochas (os três quartos das quais irão para a escombreira e um quarto para o rejeitados), teremos algo como 105.000 toneladas de arsénico a repartir entre escombreira e rejeitados. O arsénico? Um veneno letal, eficaz para outros crimes também: “Arsénico e rendas velhas”, escrevia a Agatha Christie.

Mas … e não são “areias finas” em vez de “lamas”? Já iremos ver as maravilhas geológico-conceptuais que os dirigentes da Colt nos servem à colherada. Espíritos mal-intencionados poderiam chamar-lhes “mentiras”…

José Rodrigues dos Santos / CIDEHUS / Évora, Julho de 2013.